Eu,
Bocage, nascido aos quinze dias do mês de setembro de 1765, fui, segundo
muitos, o maior poeta português do séc. XVIII. Vi pela primeira vez a luz do
dia na cidade de Setúbal, mas cedo me mudei para o Alentejo. Vivi na época do
Iluminismo e tive a sorte de pertencer a uma família culta, o que teve um
grande impacto na minha vocação de poeta. Ainda durante a minha infância, o meu
pai foi preso e fiquei órfão de mãe. Porém, agora que reflito sobre a minha
vida, apercebo-me de que também fui alvo de boas experiências, como o facto de
ter tido a possibilidade de me instruir no latim. Nos primeiros anos da minha
vida, Portugal era governado por D. José, no entanto, este foi rapidamente
substituído por D. Maria I, que expulsou o Marquês de Pombal do seu cargo como
secretário de estado. Todavia, foi neste reinado que viveu Diogo Inácio de Pina
Manique, um dos meus futuros inimigos, mas essa é uma história que contarei
mais à frente, estimado público.
Aos 16 anos, integrei,
voluntariamente, o regime de Infantaria de Setúbal, porém, mais tarde,
alistei-me na Companhia de Guarda-Marinha, onde adquiri vários conhecimentos em
diversas áreas, desde a náutica às línguas. Foi nesta altura que comecei a ser
conhecido como um grande improvisador satírico. Contudo, nunca pensei vir a ser
o consagrado poeta em que me tornei, em parte devido à vida boémia que levava,
mas este é um pormenor do qual vos peço segredo. Devo confessar que enquanto
estive na Companhia de Guarda-Marinha, houve alguns problemas que levaram à
minha deserção. Ainda assim, foram depressa resolvidos e eu tive o privilégio
de ser nomeado Guarda-Marinha da Armada do Estado da Índia. Na altura, o rumo
que a minha vida levava parecia aproximar-se cada vez mais do rumo que tivera a
vida de uma das minhas maiores inspirações, o grande Camões -«Camões, grande
Camões, quão semelhante/ Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!/ Igual causa
nos fez, perdendo o Tejo (…)»-.
No ano de 1790, regressei à Pátria e
tornei-me membro da Nova Arcádia ou Academia das Belas-Letras, onde
procurávamos combater os exageros do período Barroco e, de certa forma,
começámos a evidenciar o Neoclassicismo, ao criar um breve regresso ao
Classicismo em aspetos como a referência e descrição da natureza nos nossos
poemas, ou a presença da mitologia nas nossas obras -«Segui Marte depois,
enfim, meu fado/ Dos irmãos e do pai me pôs distante»-. Permaneci na Arcádia
quatro anos. Porém, acabei também por ser expulso devido a desavenças pessoais
com outros membros, principalmente com o padre José Agostinho de Macedo, mas
não vos preocupeis, dado que mais tarde lhe dediquei uma das minhas obras, A Pena de Talião. Na altura da minha
ingressão na Nova Arcádia, adotei livremente o pseudónimo de Elmano Sadino, o
qual podeis encontrar como assinatura de diversos poemas da minha autoria.
Após ser expulso da Academia das
Belas-Letras, escolhi ingressar na Maçonaria o que levou a uma grande
aproximação minha dos ideais da revolução francesa: Liberté, Égalité, Fraternité, liberdade; igualdade e fraternidade,
se desejais traduzir para o nosso português. Assim, comecei a apoiar também os
ideais iluministas e tornei-me uma das mais importantes figuras do Iluminismo
em Portugal -«Liberdade querida e suspirada/ Que o Despotismo acérrimo condena
(…)»-. No entanto, como já deveis ter entendido, colecionei vários inimigos ao
longo da minha vida, entre os quais se encontra o Intendente Pina Manique, como
referi anteriormente, sujeito esse que tentava combater os revolucionários e
que me mandou prender. Em primeiro
lugar, estive na prisão do Limoeiro, mas fui posteriormente transferido para o
cárcere da Inquisição no Rossio, e ainda para o convento de S. Bento da Saúde e
finalmente para o Real Hospício de Nossa Senhora das Necessidades. Como deveis
imaginar, quando fui libertado, tentei mostrar-me um pouco mais cauteloso
quanto aos meus ideais revolucionários.
Enquanto preso, comecei a fazer
trabalhos de tradução e não abandonei este cargo após o meu regresso à
liberdade. Desde o ano de 1791 até à hora em que Deus me tirou a vida, tive a
possibilidade de publicar diversas obras e ainda em 1801, Pina Manique começou
a considerar-me menos perigoso e chegou até a convidar-me a participar numa
sessão académica promovida por ele mesmo. Aos vinte e um dias do mês de
dezembro de 1805, foi a hora em que Deus decidiu que já não havia mais nada
para mim neste planeta e, dessa forma, levou-me para o céu.
Muitos estudiosos da atualidade
também me consideram um poeta Pré-Romântico devido ao facto de ser um tipo de
poesia de improviso que surge nos outeiros ou que se pode oferecer a quem
frequenta botequins, tal como eu fiz durante a minha vida. Além disso, estimado
público, os da atualidade ligam as temáticas do fatalismo e da procura do
isolamento ao período romântico e interpretam as minhas obras mais sombrias
como sendo poemas que viriam a originar essa época.
Vós
pensais como quiserdes, pois a verdade é que de onde eu estou vejo tudo e
permitam-me desde já louvar a estátua que fizeram em minha honra na praça que
apresenta o meu nome, na cidade onde nasci e dizer-vos que me sinto um
afortunado, neste paraíso onde posso desfrutar da companhia do grande Camões.
Teresa Raposo, Adriana Fernandes e Joana Fontes