sexta-feira, 18 de março de 2016

Em Aparição, de Vergílio Ferreira, surge-nos a personagem de Alberto que se depara com questões que, a meu ver, atingem todos os seres pensantes: o que é a vida? O que estamos aqui a fazer? Qual o sentido da nossa existência? Todas estas dúvidas surgem na mente da personagem principal quando o seu pai morre subitamente durante um jantar de família. Já imaginaram o choque? Ver, assim, o nosso pai a desaparecer, o nosso mundo a desabar, subitamente. Não há sensação pior do que essa, da qual mais tarde advém uma saudade interminável e permanente que se faz acompanhar de angústia e dor. Eu também perdi o meu pai, também vi o meu mundo a desabar e vivo com um constante aperto no coração. Aos treze anos, o destino tirou-me uma das pessoas mais importantes da minha vida e, mesmo sendo eu uma criança, fui obrigada a refletir sobre a importância da vida. Claro que ninguém veio ter comigo e me obrigou a fazê-lo, mas, ao convivermos com a morte tão de perto, não é possível ignorar estas questões que se fazem surgir. Já se passaram dois anos, oito meses e onze dias e mesmo assim ainda não consegui encontrar uma resposta. A leitura de Aparição deu-me a oportunidade de tentar refletir sobre a questão do sentido da nossa existência de outra perspetiva, que contrasta com a minha opinião pessoal.
A personagem de Alberto tem o seu primeiro contacto com a morte ainda em criança, quando encontra o seu cão morto. Pelo seu relato deste acontecimento, sei que o pequeno Alberto sofreu. Pode não ter transmitido nada aos que o rodeavam, mas eu senti a sua dor. Confesso que foi das partes da obra que mais me tocou, chegando mesmo a provocar-me lágrimas. Já na idade adulta, Alberto presencia a morte do próprio pai e, de novo, não parece transmitir qualquer tipo de sentimentos face a este episódio. Mais tarde, dá-se a morte da pequena Cristina. A doce, inocente, angelical Cristina. E, já no fim da obra, temos a morte de Sofia, que tinha o poder incrível de dominar a personagem principal, e não só. No entanto, mais uma vez, Alberto não mostra o seu sofrimento. Não obstante, estes acontecimentos têm um grande impacto na pessoa de Alberto, este questiona-se sobre qual o sentido da nossa existência. Perante esta interrogação, o narrador assume uma posição de existencialismo ateu. Ao longo da obra, Alberto defende que a alma morre com o corpo, que não existe uma entidade superior, nem a vida depois da morte, e rejeita o destino, mostrando-se materialista. Contudo, Alberto procura a aparição de algo que dê sentido à sua vida, algo que atribua algum tipo de valor ao seu ser, dizendo que só assim nos tornamos alguém. Só assim poderemos um dia dizer que, de facto, vivemos.
Ora, esta visão contrasta com aquilo em que acredito, uma vez que sou católica. Acredito em Deus e gosto de o fazer. Ao contrário de Alberto, gosto de pensar que a alma permanece viva mesmo depois da morte física de uma pessoa. Dá-me segurança. Dá-me esperança de algum dia poder reencontrar o meu pai, a minha avó, o meu tio e tantas outras pessoas que virei a perder ao longo da minha vida. Além disso, vivendo e amando intensamente, sabendo que um dia nos voltaremos todos a encontrar, não é preciso a aparição de algo que dê sentido à nossa existência. A nossa existência tem sentido por si mesma. Nós somos quem somos, tudo o que nos acontece tem uma razão e por vezes há coisas que não conseguimos controlar. Somos apenas seres humanos e a nossa existência é talvez a aparição que alguns, tal como Alberto, procuram.

A leitura desta obra foi extremamente enriquecedora na medida em que me proporcionou uma perceção da vida completamente diferente da que tenho e ao mesmo tempo alimentou o meu ponto de vista. Isto é, motivou-me a pensar de forma mais aprofundada sobre o tema tratado, o que me levou a ter mais certezas daquilo que defendo e em que acredito. Além disso, despoletou o meu interesse em ler outras obras de Vergílio Ferreira e confirmou o meu gosto pela sua escrita. Foi das melhores obras que já li e recomendo a sua leitura a qualquer um.


Teresa Matta Raposo

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