Em Aparição, de Vergílio Ferreira,
surge-nos a personagem de Alberto que se depara com questões que, a meu ver,
atingem todos os seres pensantes: o que é a vida? O que estamos aqui a fazer?
Qual o sentido da nossa existência? Todas estas dúvidas surgem na mente da
personagem principal quando o seu pai morre subitamente durante um jantar de
família. Já imaginaram o choque? Ver, assim, o nosso pai a desaparecer, o nosso
mundo a desabar, subitamente. Não há sensação pior do que essa, da qual mais
tarde advém uma saudade interminável e permanente que se faz acompanhar de
angústia e dor. Eu também perdi o meu pai, também vi o meu mundo a desabar e
vivo com um constante aperto no coração. Aos treze anos, o destino tirou-me uma
das pessoas mais importantes da minha vida e, mesmo sendo eu uma criança, fui
obrigada a refletir sobre a importância da vida. Claro que ninguém veio ter
comigo e me obrigou a fazê-lo, mas, ao convivermos com a morte tão de perto, não
é possível ignorar estas questões que se fazem surgir. Já se passaram dois
anos, oito meses e onze dias e mesmo assim ainda não consegui encontrar uma
resposta. A leitura de Aparição
deu-me a oportunidade de tentar refletir sobre a questão do sentido da nossa
existência de outra perspetiva, que contrasta com a minha opinião pessoal.
A personagem
de Alberto tem o seu primeiro contacto com a morte ainda em criança, quando
encontra o seu cão morto. Pelo seu relato deste acontecimento, sei que o pequeno
Alberto sofreu. Pode não ter transmitido nada aos que o rodeavam, mas eu senti
a sua dor. Confesso que foi das partes da obra que mais me tocou, chegando
mesmo a provocar-me lágrimas. Já na idade adulta, Alberto presencia a morte do
próprio pai e, de novo, não parece transmitir qualquer tipo de sentimentos face
a este episódio. Mais tarde, dá-se a morte da pequena Cristina. A doce,
inocente, angelical Cristina. E, já no fim da obra, temos a morte de Sofia, que
tinha o poder incrível de dominar a personagem principal, e não só. No
entanto, mais uma vez, Alberto não mostra o seu sofrimento. Não obstante, estes
acontecimentos têm um grande impacto na pessoa de Alberto, este questiona-se
sobre qual o sentido da nossa existência. Perante esta interrogação, o narrador
assume uma posição de existencialismo ateu. Ao longo da obra, Alberto defende
que a alma morre com o corpo, que não existe uma entidade superior, nem a vida
depois da morte, e rejeita o destino, mostrando-se materialista. Contudo,
Alberto procura a aparição de algo
que dê sentido à sua vida, algo que atribua algum tipo de valor ao seu ser,
dizendo que só assim nos tornamos alguém. Só assim poderemos um dia dizer que,
de facto, vivemos.
Ora, esta
visão contrasta com aquilo em que acredito, uma vez que sou católica. Acredito
em Deus e gosto de o fazer. Ao contrário de Alberto, gosto de pensar que a alma
permanece viva mesmo depois da morte física de uma pessoa. Dá-me segurança.
Dá-me esperança de algum dia poder reencontrar o meu pai, a minha avó, o meu
tio e tantas outras pessoas que virei a perder ao longo da minha vida. Além
disso, vivendo e amando intensamente, sabendo que um dia nos voltaremos todos a
encontrar, não é preciso a aparição
de algo que dê sentido à nossa existência. A nossa existência tem sentido por
si mesma. Nós somos quem somos, tudo o que nos acontece tem uma razão e por
vezes há coisas que não conseguimos controlar. Somos apenas seres humanos e a
nossa existência é talvez a aparição
que alguns, tal como Alberto, procuram.
A leitura
desta obra foi extremamente enriquecedora na medida em que me proporcionou uma
perceção da vida completamente diferente da que tenho e ao mesmo tempo
alimentou o meu ponto de vista. Isto é, motivou-me a pensar de forma mais
aprofundada sobre o tema tratado, o que me levou a ter mais certezas daquilo
que defendo e em que acredito. Além disso, despoletou o meu interesse em ler
outras obras de Vergílio Ferreira e confirmou o meu gosto pela sua escrita. Foi
das melhores obras que já li e recomendo a sua leitura a qualquer um.
Teresa Matta Raposo
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