quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Comentário

«O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas vegetação. Nem
tão- pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes -

problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.»

               Da mesma forma que sucedeu com o poema que escolhi para apresentar aos meus colegas, quando li este, soube instantaneamente que era o tal que queria comentar. Não precisei de procurar outras obras, uma vez que o impacto deste poema na minha pessoa foi imediato. Ao ler este texto, tornou-se claro para mim o tema que tratava, no entanto, não óbvio o suficiente de modo a que não me desse a oportunidade de refletir e interpretar o poema. Gostei realmente da escrita de Casimiro de Brito e a cada palavra que lia o poema fazia cada vez mais sentido, dentro da forma como o interpretei, que, devo confessar, restringiu-se ao sentido literal das palavras e à dificuldade que se enfrenta ao escrever poesia que signifique algo para alguém, que transmita emoções.

Não obstante, acredito que O poema pode despertar em cada alma diferentes interpretação e sentido, basta que cada um tente agora descobrir o que este poema lhes diz.




O Amor

«De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.»

               O poema escolhido no âmbito do projeto individual de leitura – O sol nas noites e o luar nos dias – levou à reflexão sobre o amor. Mas que sei eu sobre isso? Tenho 16 anos, estou a começar a vida e nunca entreguei completamente o meu coração ou recebi o de ninguém. Assim, muitos de vós estarão a pensar que não tenho a vivência necessária para escrever sobre ele, o que não é a realidade. Apesar da minha inexperiência, já me apaixonei e tive um desgosto. Já senti tanto a alegria e o entusiasmo, como as facadas do amor. Já quis dar tudo de mim a alguém que o recusou.  É a isto que nos sujeitamos quando nos deixamos dominar pelo amor. Mas de quem será a culpa? Nossa?
               Talvez seja nossa a culpa dos fracassos que vivemos no amor. Talvez, quando amamos, construamos obstáculos entre nós e o objeto do nosso sentimento para nos protegermos, como no poema. Ou talvez o façamos para não transparecerem as nossas imperfeições aos outros porque desejamos ardentemente a reciprocidade do sentimento. Contudo, será que a culpa pode ser atribuída ao amor em si, ao sentimento?
               Creio que é bastante comum tal acontecer. O amor é a origem das desilusões que sofremos dia após dia, dado que é devido à entrega incentivada por este sentimento que tantas vezes nos magoamos. Mas será que podemos sequer atribuir culpa a alguém?
               Tantas vezes estas questões surgem na minha mente e o poema fez-me querer escrever sobre estas, mas também despoletou interrogações face à felicidade proporcionada pelo amor. Apesar de tudo, este é também um sentimento enriquecedor e intenso que preenche os buracos da alma e, quando partilhado com a pessoa certa, sara o coração de mágoas anteriores.
               No fundo, o que é que se pode dizer sobre o amor? Unicamente que é o sentimento que mais mágoa e felicidade irá trazer à nossa vida, e que, por muito que queiramos, simplesmente não o podemos recusar.
               Este poema despertou a minha atenção e inspirou-me, uma vez que é todo o sentimento do amor transformado em palavras.